segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Sob o neon

Ela vestia veludo azul. Um longo vestido e sandálias de salto alto pretas. As unhas das mãos e dos pés eram pintadas de vermelho, contrastando com o tom noturno da roupa e combinando com o batom. Seus cabelos escuros e anelados mal alcançavam a altura dos ombros, e brilhavam sob a luz neon do palco sujo.

Cantava como uma amante mimada que tenta persuadir seu homem a abandonar a esposa e fugir com ela, para viverem eternamente felizes e sem preocupações. Não encarava o público: fixava seu olhar na parede oposta ao palco, mas vez ou outra eu conseguia notá-la me fitando.

A apresentação terminou e fui o único a aplaudi-la. Não que ela fosse uma ótima intérprete. Não que eu tivesse gostado. Não que eu a desejasse. Foi apenas uma atitude educada de um espectador curioso e solitário, que encontrou naquele lugar um refúgio pacífico para seus desalentos.

A mulher agradeceu timidamente, sem olhar em minha direção. Desapareceu do palco e ressurgiu sentada em um banco alto, bebendo algum drink. O glamour do figurino e da maquiagem não estava mais presente. Agora, ela era uma pessoa comum, concentrada em seu vício e entediada em sua rotina. Ensaiei uma aproximação, mas não tinha assunto. Observei-a se levantando para apanhar uma grande sacola, provavelmente com o vestido e todos os acessórios que intentaram transformá-la em uma diva decadente. Saiu e poucos perceberam sua ausência. Eu, porém, jamais esqueci o brilho ondulante daquela luz obsoleta em seus cabelos delicados.  

domingo, 14 de setembro de 2008

Plagiando o blog alheio

TOP 10 atores da atualidade que fazem a minha cabeça na arte de atuar e/ou na arte de me fazer suspirar em frente às telas - do blog A culpa é da crítica.

10) Ryan Gosling
09) James McAvoy
08) Clive Owen
07) Ewan McGregor
06) Christian Bale
05) Joaquin Phoenix
04) Colin Firth
03) Jake Gyllenhaal
02) Matt Damon
01) Hugh Jackman

Poderiam estar aqui: Jude Law, Mark Ruffalo, Cillian Murphy, Johnny Depp, Casey Affleck, Emile Hirsch, Eric Bana, George Clooney, James Franco, Paul Rudd, Rodrigo Santoro e Robert Downey Jr.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Hiperativa – e sem café

Eu achei que o problema fosse o café. Não que ele não seja, mas cortá-lo totalmente do meu cotidiano não reduziu tanto assim a ansiedade e a hiperatividade. Ou, talvez, esses dias eu esteja um tanto impaciente. Nada pessoal, só que ando usando muito a palavra lesado no meu vocabulário mental. Talvez porque eu seja uma pessoa de iniciativa, que prefere buscar as coisas sozinha antes de pedir favores. Então, por que as pessoas não tentam ser assim também? Alguns podem achar que é TPM. Não é. É a constatação de que existem muitos preguiçosos por aí.
Outro resultado dessa hiperatividade é que não consigo mais passar o final de semana em casa. E isso já há alguns meses. Pelo menos agora eu não dependo do cronograma nem dos horários inconvenientes de ninguém. No domingo, acordo a hora que quero. Aos sábados, tenho curso de francês, mas posso dormir bastante antes e sumir depois da aula. Não quero me acomodar, e quanto mais tempo passo comigo, mais gosto disso.
Não quero acrescentar nada na vida de ninguém. Não quero deixar lições, reflexões e et cetera (desculpem a expressão, mas esse tipo de coisa me dá vontade de vomitar... consistir uma relação a “ensinar algo a alguém” é muito professoral e piegas para o meu gosto).
Pronto. Desabafei. E não bebi café.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Ian Curtis

(O mártir das mulheres que já tiveram o azar de se envolver com indecisos)

Ian Curtis nasceu em 15 de julho de 1956, e cometeu suicídio em 18 de maio de 1980. Ele não apenas se enforcou com o varal na cozinha de sua casa, como livrou o mundo de mais um cara indeciso que não sabe tomar atitude. Segundo a cinebiografia
Control, de Anton Corbjin, o vocalista do Joy Division não queria se separar da esposa, Deborah Curtis, nem perder a amante, Annik Honoré, jornalista belga groupie (ela sabia que Curtis era casado e tinha uma filha). Quando Deborah deu um ultimato ao marido, dizendo que queria o divórcio, ele se matou.
Alguns podem justificar que o fato de o compositor sofrer de epilepsia e depressão pesaram muito na decisão de dar fim à própria vida.
He’s lost control. Mas o público não parece entender a conduta daquela que o apoiou nos piores momentos de sua vida: a esposa. Porque é muito mais fácil ser um rockstar rebelde e popular do que ser a companheira dele. Logo, a atitude desse mártir foi a mais apropriada para uma pessoa confusa, indecisa, ciumenta e egoísta como ele.

Algumas frases (com a colaboração da
Menina Enciclopédia)
“Não sabe o que quer? Se mata que nem o Ian Curtis”
“Todo cara covarde deveria fazer como Ian: se matar. Faria um serviço à humanidade”
“Ian Curtis é o mártir das mulheres que já tiveram o azar de se envolver com indecisos”

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Discípulas de Carol

Uma das maiores invenções de todos os tempos são os óculos escuros. Não é simplesmente um acessório, mas uma nova forma de ver e ser visto pelo mundo. Esse indispensável companheiro tem inúmeras utilidades, além de proteger olhos sensíveis da luz do sol. Uma delas é reparar nas pessoas sem ser notado. E é exatamente por isso que um comercial de refrigerante com uma certa Carol, lançado há algum tempo, é uma das poucas verdades da publicidade. A moça está de óculos escuros, tomando um sol na praia, acompanhada do namorado, quando este pergunta o que ela tanto olha. “O mar”, responde. Segundos depois, ouvimos a moça esperta cumprimentando um belo rapaz com um inocente “Oi Omar!”.
Para paquerar, óculos (bem) escuros quebram um galho. Você consegue passear o olhar em vários detalhes e manter um quê de avoada (discrição na hora de mover a cabeça também ajuda). E o mais engraçado: algumas pessoas encaram mais justamente por você usar o acessório, talvez por pensarem que ele seja sinônimo de visão deficiente. Vai saber!
Outra maravilha atribuída aos óculos escuros: disfarçam aquela olheira no dia seguinte, depois de você se esbaldar a madrugada inteira. Eles também podem tornar mais bonito o rosto de quem os usa, dar um ar cool e permitir que se tire um cochilo do ônibus ou no metrô sem chamar tanta atenção (basta não ficar pescando e manter uma postura ajeitada).
Os óculos escuros podem ter muitas outras utilidades, basta cada um descobrir a melhor no momento certo e na hora certa.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Chico, Eric e Lou

Um Chico Buarque iria bem naquele começo de noite de sábado. Mas quando o compositor dos olhos azuis, que embala muitos sonhos com sua poética insuperável, cantou Olhos nos olhos, chorei instintivamente. A emoção não aflora quando alguma canção me lembra outra pessoa. Ela vem à tona quando lembra eu mesma. E Olhos nos olhos é como um espelho que reflete meu subconsciente: é uma personagem dizendo para mim “eu canto sobre aquilo que, embora você não saiba, quer ser”.

Tears in heaven, de Eric Clapton, é outra canção que me faz chorar. A letra é tão tocante e, de certa forma, desesperadora, que até mesmo meu ceticismo desenfreado cria ilusões de um Paraíso onde podemos reencontrar pessoas queridas.

A terceira dessas canções, e talvez a última, é Perfect Day, do Lou Reed. Não me remete tanto à cena da overdose de Mark Renton em Trainspotting, mas ao inalcançável desejo de ter um dia perfeito. Na minha interpretação, os versos falam mais sobre a solidão do que o compartilhamento de bons momentos. Dias perfeitos não existem, e jamais existirão. São apenas projeções que nossas mentes fazem naqueles momentos de cegueira, onde a felicidade passageira se sobrepõe à razão.

 

Olhos nos olhos (Chico Buarque)

 

Quando você me deixou, meu bem

Me disse pra ser feliz e passar bem

Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci


Mas depois, como era de costume, obedeci



 

Quando você me quiser rever


Já vai me encontrar refeita, pode crer


Olhos nos olhos


Quero ver o que você faz


Ao sentir que sem você eu passo bem demais



 

E que venho até remoçando


Me pego cantando, sem mais, nem por quê


Tantas águas rolaram


Quantos homens me amaram


Bem mais e melhor que você




Quando talvez precisar de mim


Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim


Olhos nos olhos


Quero ver o que você diz


Quero ver como suporta me ver tão feliz

sábado, 6 de setembro de 2008

Da série...

...Se eu fosse Maria Gasolina

Lewis Hamilton


sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Na farmácia

“Tomara que ele não esteja lá”. Andei mais alguns metros e consegui visualizar a fachada da farmácia. “Ah não... ele está no caixa. E é o único caixa aberto”. Eu não tinha muito tempo para passar em outra farmácia antes do trabalho, teria que ser aquela mesmo.

Entrei no estabelecimento, imaginando teorias o tempo inteiro. “Será que ele vai lembrar que eu vim aqui ontem na hora do almoço e comprei a mesma coisa?”. Dirigi-me ao corredor de higiene pessoal feminina. “Mas que cabeça, eu sempre tenho que esquecer algo em casa”. Peguei uma embalagem e tirei o dinheiro da bolsa. “Bem que ele poderia sair do caixa agora. Por que toda vez que venho comprar isso é ele que está lá?”.

Respondi timidamente ao bom dia e entreguei o pacote de absorventes. “Ele é bonito”. Jovem, mestiço, simpático... Isso me deixou com mais vergonha ainda – como se essa situação não afetasse todas as mulheres todos os meses do ano. “Nossa, ele está me olhando com cara de quem me reconheceu de ontem”. Paguei a compra e de repente olhei bem nos olhos dele. “Pronto!”.

Guardei o pacote na bolsa e saí da farmácia. “Imagine se eu fosse comprar outra coisa como, hum, camisinha? Nossa, acho que nunca mais voltava!”. Fiquei perplexa com minha própria timidez. 

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Eu tenho medo...

Fãs que sabem de cor todas as músicas do artista em um show

Para mim, é obsessão saber de cor todas as músicas do playlist, até um cover obscuro. Não importa se a banda seja boa ou ruim. E onde se arranja tempo para isso? O fã deve ter um santuário do artista em casa e não ter vida social, no mínimo.

Menina Maisa

Não apenas medo, como também pena da garotinha que apresenta um programa infantil matinal do SBT. Os pais que expõem essa criança por dinheiro deveriam ter vergonha. E como diz o Rafinha Bastos, “ela é um robô disfarçado”.

Homem de chocolate do comercial do Axe

Como se não bastasse o cinema mostrar um monstro gigante de marshmallow com cara diabólica (Os Caça-fantasmas, lembram?), a publicidade nos apresenta, em pleno século XXI, a um homem de chocolate sorridente e muito feio.

Andar de lotação

É mais rápido do que ônibus – e mais perigoso também. Andar de lotação pelas ruas e avenidas paulistanas é uma aventura, principalmente se você está em pé porque não há lugar para sentar nos bancos. E dá-lhe tropeções!

Modinhas

Uma mulher ridícula com nome de fruta gera clones à sua altura, como a melão e a morango. Uma adaptação legalzinha de graphic novel (Sin City) desencadeia babaquices como 300. Nada se cria... para isso existem as frases feitas. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Relativismo e...

Não adianta. Caio na armadilha de soar redundante, de fazer desse blog uma página de fã-clube, de afastar leitores ainda remanescentes... Mas registro, para futuras consultas próprias, essa sábia e poética reflexão de João Pereira Coutinho (para quê livros de auto-ajuda quando podemos ler esse autor?), como mais uma vez faço abaixo: 

"(...) Em doses temperadas, o relativismo é um convite para não fazermos o mal. Ele esvazia o nosso patético ego como uma agulha que fura o balão de uma criança. E ele é sobretudo útil em matéria de amor: somos amados, magoados, atraiçoados. Acreditamos que, depois do abandono, teremos uma dor inultrapassável, que se vai prolongar pelos séculos seguintes.

Mas a verdade é bem mais triste e, paradoxalmente, bem mais feliz. Tudo passa. A dor vai diluindo-se em tristezas menores, que ficam como o pó esquecido nos cantos da casa. E certo dia descobrimos que o tempo cobriu tudo com invisíveis mortalhas; e o passado é o porto de onde a nossa embarcação já se afastou há muito. Vemo-lo ao longe, por entre a neblina. Mas não há regresso.

Desesperado leitor: se achas que a dor de hoje te autoriza a tudo, lembra-te que és nada e que a tua vida será nada. E festeja essa certeza com a alegria sincera dos náufragos resgatados."

(Em defesa do relativismo suave, publicado originalmente na Folha Online)