sexta-feira, 3 de julho de 2009

A verdade está lá fora?

Uma decepção. Uma briga. Um aborrecimento. Uma tristeza. Um fim? Depende do ângulo. A vida continua, mas de fato houve um fim. À base de muito choro, dor e confusão, mas o que veio depois foi um amortecimento dos sentimentos e emoções – e aquela vontade imensa de fugir e sumir.
Durante meses coloquei na cabeça que a verdade estaria lá fora. Não em Marte, Saturno ou Júpter, mas do outro lado do oceano ou da linha do Equador. É a romanceação de que a vida poderia não ser tão fácil no início, mas levaria à felicidade, ao crescimento e – claro – à verdade. Parei de romancear e delimitei os objetivos com os pés no chão. Informei-me, planejei e, finalmente, estou prestes a tomar a decisão. Diferentes locais passaram pela minha mente e restou a dúvida entre os kiwis e os ursos. Digo, Christchurch (Nova Zelândia) e Toronto (Canadá).
O arquipélago do Pacífico sempre instigou a minha curiosidade por estar distante de outras nações e não ter a imponência de uma Austrália, além de outros fatores, como a natureza exótica e selvagem e, sim, Flight of the Conchords. Já o Canadá tem a preferência por oferecer preços mais convidativos, estar próximo dos Estados Unidos e, sim, Kids in the Hall. Mas, no final, quem acabou ganhando foram as ilhas solitárias.

A data da viagem ainda não foi estabelecida, apesar de eu já ter feito minha escolha. Passarei um mês estudando inglês e respirando novos ares. Se a verdade está lá fora, só depois de voltar descobrirei.


"Para quem não me conhece, muito prazer. Eu sou o Kiwi"

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Anonimidade

Era uma noite fria e úmida, dessas em que finas gotículas de água esfumaçam a luz que ilumina as ruas. Lado a lado, ele e ela caminham pela calçada da travessa escura e estreita. Ele, um homem alto com o pescoço envolto pelo cachecol xadrez, o nariz vermelho e as duas mãos dentro do bolso do casaco. Ela, uma mulher baixa de cabelos escuros, com botas nos pés e um discreto chapéu.
A cidade parece imersa em um sono infinito, mas a atmosfera silenciosa é interrompida por ruídos de latas de lixo que servem de trampolim para os gatos vira-latas saltarem em direção ao muro do velho restaurante italiano. As outrora chamativas luzes neon dos bares e restaurantes agonizam e se esforçam para se manterem acesas, piscando, oscilando, emitindo zunidos perceptíveis pelos passantes que se postam embaixo do painel brilhante.
A dupla não troca olhares. Ele olha fixamente para o chão, enquanto ela finge ter algum interesse no gato que atravessa a rua em direção à soleira da porta de um velho sobrado. Em meio aos restaurantes fechados, o jazz escapa do interior de um bar decadente, levando melancolia aos ouvidos mais próximos. O saxofone chora na medida em que a agulha da vitrola desliza sobre o vinil cambaleante e a fumaça do cigarro do velho dono solitário constrói formas elegantes no ar que dispersam e desaparecem segundos depois.
Ele empurra a porta do bar e ela entra antes, em silêncio. Sentam-se à mesa de madeira coberta por uma toalha verde encardida. Os quadros na parede evocam um passado glorioso àquela travessa e seus frequentadores ilustres – músicos, pintores, escritores, jornalistas. Um suspiro pouco audível escapa dos lábios dela enquanto ele encara o fundo do copo de gim.

sábado, 20 de junho de 2009

Se eu fosse...

Aleatório
... uma cor, seria cinza.
... um lugar, seria uma vila no sul da Europa.
... uma década, seria 1920.
... um dia da semana, seria segunda-feira.
... uma estação do ano, seria primavera.
... um bicho de pelúcia, seria uma coruja.
... uma marca, seria Swatch.
... uma marca esportiva, seria Reebok.
... uma marca de roupa, seria Nonsense.
... uma bebida, seria Alexander.

Literatura e Artes
... uma personagem literária, seria Emma Woodhouse.
... um livro, seria O Grande Gatsby.
... um best seller, seria O Diário de Bridget Jones.
... um modernista, seria Mário de Andrade.
... uma peça teatral, seria Cyrano de Bergerac.
... um quadro, seria Golconda, de René Magritte.
... um movimento artístico, seria o impressionismo.

Música
... uma banda, seria Ben Folds Five.
... uma canção, seria Raindrops keep fallin' on my head, de Burt Bacharach e Hal David.
... uma dupla, seria Simon & Garfunkel.
... um álbum, seria The man who, do Travis.
... um compositor, seria Chico Buarque.
... um sambista, seria Adoniran Barbosa.

Cinema e TV
... uma personagem de desenho, seria a Lisa Simpson.
... uma personagem de série, seria a Elaine (Seinfeld).
... uma série, seria Seinfeld.
... um programa de TV, seria o CQC.
... um diretor, seria Federico Fellini.
... um roteirista, seria Woody Allen.
... uma musa, seria Audrey Hepburn.
... uma atriz, seria Giulietta Masina.
... um ator, seria Gene Kelly.
... uma trilogia, seria De volta para o futuro.
... um filme, seria O fabuloso destino de Amélie Poulian.
... um musical, seria Cantando na Chuva.
... uma comédia, seria Hary & Sally - Feitos um para o outro.
... um drama, seria A estrada da vida.
... um romance, seria Casablanca.
... um épico, seria Os sete samurais.
... um terror, seria O bebê de Rosemary.

(Se tiver mais sugestões para essa lista, deixe nos comentários)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Notas sobre o nada

- Apenas recentemente conferi o filme Irresistível Paixão, do diretor Steven Soderbergh. É um thriller romântico bastante charmoso – não apenas pela presença de George Clooney. Gostei bastante da montagem, da trilha sonora e do figurino da Jennifer Lopez. E, eu juro, nunca vi ela atuando tão bem. O que um bom diretor não faz…

- Tenho visto tantos filmes em preto e branco que quando vejo algum colorido, estranho. Baixei três do Buster Keaton via torrent e me tornei uma fã maior ainda. Adotei o lema “Só Buster Keaton salva”.

- E os Irmãos Marx então... são viciantes. Mas descobri que o ideal é ver os filmes com a legenda em inglês, já que eles fazem muitos trocadilhos geniais e a adaptação para o português se perde. Toda vez que o Chico se aproxima de um piano, eu me realizo.

- Gostei de Duplicidade. É um bom filme de espionagem corporativa, do mesmo diretor e roteirista de Conduta de risco (Prefiro o nome original, Michael Clayton), um sujeito talentoso chamado Tony Gilroy.

- Vi também Intrigas de Estado, que traz um dos melhores elencos do ano: Russell Crowe, Helen Mirren, Rachel McAdams, Jason Bateman, Robin Wright Penn, Jeff Daniels e até Ben Affleck, que surpreende. O roteiro foi coescrito por (sim, ele mesmo) Tony Gilroy.

- Estou com saudades de The Big Bang Theory. Notaram que minhas inspirações deram uma sumida? É a falta que a série me faz...

- Recomendaram por aqui dois artistas musicais que gostei bastante: Malajube e Jason Mraz. Ainda não tive a disciplina de ouvir ou baixar outros indicados. Ah, We Are The Scientists não me chamou muito a atenção. Talvez deva ouvir com o headphone para descobrir se há algo a mais no som da banda.

- Não vou no show do Kooks mesmo. Achei caro para ver só uma banda que lançou apenas dois álbuns. Fora que nem sei quem vai abrir o show para os britânicos.

- Tenho andado muito preguiçosa para livros. Sabe, tudo tem uma fase para mim. Atualmente leio muito sobre cinema na internet, devoro as ótimas reportagens da Galileu e dou um en passant na Época. Meu O Poderoso Chefão está lá no armário, esperando ser retomado.

- Nova enquete para as moças, ali ao lado. Mas os rapazes também podem votar, sem preconceito.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Coleção de frases randômicas – Parte V

Espectadora assanhada na sessão de Wolverine faz um comentário em voz alta com as amigas durante a cena em que uma velhinha vê o herói do jeito que ele veio ao mundo...
- Que velhinha de sorte! Viu o que todo mundo queria ver.

Minha amiga comenta a fala de uma personagem no filme Duplicidade, que afirmou ter valido a pena ter se deixado envolver por Ray Koval (Clive Owen)...
- Mas também, se o Clive Owen não valesse a pena que homem valeria?

Minha mãe vê o Rafael Cortez no CQC e faz um comentário sobre o rapaz...
- Ele é uma gracinha. Acho tão bonitinho dente da frente separado.

Uma colega de trabalha me usa como objeto de comparação com uma pessoa que não conheço...
- Ela é miudinha assim que nem a Lucie.

Minha irmã faz uma pergunta relacionada ao Futurama...
- Você vai guardar esse DVD do Fliperama?

Outra da mesma pessoa acima, desta vez sobre o Anton Chigurh, o psicopata de Onde os fracos não têm vez...
- Por isso que esse cara não tem mulher.

Ao me despedir de uma festinha na empresa, ouço a seguinte frase...
- Não vá embora. Fique com seu cabelo bonito! [tinha cortado alguns dias antes]

Mãe no Masp explicando a pintura de Picasso ao filho de, no máximo, seis anos de idade...
- (...) É igual Machado de Assis e Mário de Andrade. Lembra de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Macunaíma, como eram diferentes? [a explicação foi muito boa, mas o menino devia ser um superdotado para entender do que ela falava]

Após a próxima estação ser anunciada no metrô, um garotinho diz a mesma frase que eu falava quando era criança...
- Saúde é de "atchim"!

Sheldon Cooper dá uma lição de moral em Leonard em The Big Bang Theory...
- Só para constar, minha mãe diz que quando enganamos em benefício próprio, fazemos Jesus chorar.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Marxista principiante

Nunca fui politizada - talvez por influência familiar. Meu pai e a minha mãe ficaram tão decepcionados com os rumos do país após a primeira eleição presidencial do qual participaram que, a partir de então, me ensinaram a votar nulo.
- O negócio é marcar todos os quadradinhos da cédula. Porque se não marcar nenhum, o voto vai para quem já está ganhando.

Logo, não é difícil imaginar a garota politicamente avoada em uma sala de aula cheia de aspirantes a jornalistas, cuja maioria era petista utopista, todos esperançosos acerca do rumo que o país tomaria a partir da eleição do homem barbudo para o Planalto. Achava aquilo tudo bonito demais: uma juventude faminta por política, debatendo o tema com argumentos fundamentados na história e na confiança a um partido que deu duro até chegar ao topo.
Mas, a cada tropeço dos novos mandantes, eu guardava comigo mais uma razão para não acreditar em ser humano nenhum. O alvoroço incial deu lugar a uma melancolia, ora permeada por revoltas ora embriagada em pura arrogância de quem não admite que, mais uma vez, apostou errado.
Meu lado politico aflorou quando li O Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich Engels. Confesso que foi a obra que mais me fez refletir sobre meus ideais políticos. Estudei-a en passant, lendo somente para eu mesma, sem me preocupar com o que seria cobrado no seminário ou na prova. A partir do manifesto vermelho, compreendi o quanto alguns famosos governos totalitaristas haviam ido longe demais com a justificativa de buscar a igualdade entre os homens. Minhas crenças sociais e políticas decaíram ainda mais.

Cinco anos depois, vejo-me outra vez como uma marxista principiante. Desta vez, deixando o discurso comunista de lado, adoto o anarquismo célebre de uma fatia da imensa – e espiritualmente pobre – indústria cultural. Bastaram apenas alguns espetáculos audiovisuais para eu cair nas graças dos Marx cultos e irreverentes: os irmãos Chico, Harpo e Groucho. Sem nenhum parentesco com o filósofo alemão, os Irmão Marx eram na verdade Marrix. O pai, um alfaiate da região da Alsácia, atual França, chegou à América no século XIX e teve o sobrenome registrado com a mesma grafia do cultuado Karl.
O vaudeville, escola artística de gente como Charlie Chaplin e Buster Keaton, serviu de palco para os irmãos ensaiarem a histórica passagem pela Broadway e a histérica estréia nas telas do cinema. Os caçulas da família, Zeppo e Gummo, estiveram por pouco tempo nos espetáculos, obviamente ofuscados pelo talento cômico dos manos mais velhos.
O primogênito Chico (na verdade, Leonard) incorporava o tipo italiano, com seu sotaque e chapéu. Ao lado de Harpo, protagonizava os momentos mais nonsense e de genialidade musical: era um exímio pianista. Querido pelo público, Harpo (que se chamava Arthur) era harpista autodidata e encarnava o mudo folgado. Com peruca, cartola e buzina, perseguia as mulheres como um tarado. O mais famoso dos irmãos era o filho do meio, Groucho (registrado sob a alcunha de Julius). Com um sarcasmo de fazer inveja ao Dr. House, tinha como marcas registradas grandes sobrancelhas e bigode pintados, além do charuto e o jeito de andar engraçado.
Os Irmãos Marx precederam o humor corrosivo do Monty Python e inovaram a maneira de fazer comédia em um período de transição entre o cinema mudo e o falado. E o que impressiona mais é constatar que a primeira metade do século XX foi uma época em que era realmente preciso ter talento para ser reconhecido – embora, injustamente, muitos fossem esquecidos pela impiedosa indústria cinematográfica.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Alfinetadas pOp

* O fato de se dizer um expert musical por conhecer muitas bandas e artistas, além de ter uma vasta coleção de vinis e CDs, não quer dizer que tenha capacidade de fazer músicas tão boas quanto as que ouve. Não é porque eu adoro as obras do Fellini que vou comprar uma câmera e sair por aí fazendo filme. 

* Se o Dado Dolabella, Roberto Justus, Scarlett Johansson, e Maguila gravaram um álbum, quer dizer que eu posso gravar um também?

* Construir um mito é tão fácil quanto derrubar. Basta morrer jovem para ser reconhecido, e se desempregar velho para ser destruído.

* Ainda não sei se gente que fala demais ouve demais também ou o contrário, ouve de menos. Talvez ouça demais o que não presta, e de menos o que realmente precisaria ouvir. 

*Eu não falo sobre a minha vida para qualquer um. Isso denota que não quero que qualquer um fale sobre sua vida para mim.

domingo, 31 de maio de 2009

O pequeno grande Buster Keaton

Sou fã de Charlie Chaplin. Admiro seu trabalho e considero sua contribuição para o cinema uma das maiores que um artista poderia fazer. É inquestionável que ele foi um grande nome do cinema mudo, com suas comédias que faziam crítica social ora de um modo pastelão, ora extremamente político. Mas Chaplin não esteve sozinho na empreitada de levar a comédia ao público de cinema na década de 20. Entre outros artistas da época, havia outro homem de 1,65 (mesma altura de Chaplin), famoso por encarnar o mesmo tipo de personagem: Buster Keaton.
Nascido Joseph Frank Keaton VI, ganhou aos seis meses de idade o apelido Buster (destruidor) do famoso mágico Houdini, após cair de vários degraus da escada de um hotel sem se machucar. Desde criança fazia espetáculos de vaudeville com o pai e a mãe no que ficou conhecido como The Three Keatons. A experiência como acrobata circense foi levada ao cinema, mas o que mais chamava a atenção em Buster, além de suas proezas físicas, era o fato de estar sempre sério, o que resultou em outro apelido: Rosto de pedra.
Conheci o trabalho do ator e cineasta em 2007, numa maratona de filmes no Centro Cultural São Paulo, onde foram exibidos
The General, The Saphead, The High Signs, One Week e The Three Ages. Instantanemente percebi que aquilo era coisa de gênio e fui atrás de outros filmes - curtas e média metragens -, aproveitando a programação do Sesc e a oportunidade do DVD: Steamboat Bil Jr.; The Scarecrow; The Boat; The Electric House; Seven Chances; The Balloonatic e Neighbors. Seu tipo de humor me lembra muito os desenhos da Warner, como Pernalonga, e algumas estripulias do Jackie Chan.
Na década de 50, Buster teve ainda participação em dois grandes filmes:
Sunset Boulevard, de Billy Wilder, e Limelight, de Charlie Chaplin, com quem dividiu uma emocionante cena cômica no final.
Abaixo, um video tributo com alguns dos grandes momentos de Buster no cinema:




segunda-feira, 25 de maio de 2009

Dona Marta e o viúvo

- Eu só vou me casar com um homem que seja viúvo.

Esse era o plano de casamento para Dona Marta, solteira aos 46 anos. Conheceu poucos homens na vida e, com alguns deles, passou mais tempo do que deveria. Cansada de assistir à casa se tornar um acampamento de marmanjo toda vez que oferecia o teto e o jantar, tomou a decisão de só se envolver a sério com quem valesse a pena o suficiente para casar. E como todas as tentativas de romance anteriores eram apenas com solteirões que queriam sair debaixo das asas da mãe, mas não tinham maturidade o suficiente para bancar nem metade das despesas de um lar, chegou à conclusão de que experiência seria o mais relevante na hora de encontrar um novo amor.

- Eu te entendo pelos trastes que passaram por aqui, mas precisa ser viúvo? Homem separado não conta? – questionou Irene, sentada à mesa na casa da amiga, bebendo uma xícara de café fresco.
- Não, porque se separou é que aprontou. Mulher da nossa idade só deixa homem disparar de casa se é um mulherengo que não vale nada. E muitos nem são expulsos, fogem com a sem-vergonha que arrumou e deixa a coitada com os filhos e sem pensão.
- Para você não existe meio termo mesmo. Mas por que defende viúvo?
- Ah, é um amor que se consumou até que morte separasse o casal. Ele fica, sofrendo, e só se envolve com outra mulher de verdade quando o amor é tão grande que ele supera a dor.
Dizendo isso, lançou um olhar romântico para a janela e notou uma mancha no vidro. Subiu na cadeira e esfregou um paninho, voltando à conversa com uma conclusão:
- Da nossa idade, só viúvo que sabe valorizar a mulher. Homem só aprende quando a perda é grande, e eu não quero ensinar ninguém os deveres masculinos numa casa.

Algumas semanas depois, Irene conheceu um viúvo. Parente de um vizinho, morava sozinho desde a morte da esposa, há seis meses. Passava uns dias na casa do irmão, a quem não via há muito tempo, e despertou a curiosidade de Irene a ponto de ela traçar um plano para ele e Dona Marta se conhecerem.
- Agora você não reclama mais que eu não venho te visitar. Tem alguém batendo palma lá no portão.
- Ah, é uma pessoa que quero apresentar, o Seu João…
- Lá vem você! Mas eu tô bem assim!
- É viúvo e um homem muito educado.

Dona Marta disfarçou a excitação e Irene foi abrir o portão para o visitante, que cumprimentou a amiga de Irene e se sentou ao lado dela no sofá. A conversa foi tranquila, sem faíscas, mas Irene insistia na ideia de haver um interesse entre os dois. E, de fato, havia. Discretamente, ele pediu o telefone de Dona Marta para convidá-la à quermesse da igreja na próxima semana. Ficaria algumas semanas na cidade e poderiam se ver mais vezes. E se viram tanto que a estadia do homem se estendeu até ele pedir a mão de Dona Marta em casamento.

- Só dois meses depois daquele encontro na sua casa e já quer ir ao altar comigo!
- Mas não era isso que você queria? Um viúvo educado e de boa família? O irmão dele é trabalhador, ele deve ser também.
- E é, pelo que disse. Eu já estou velha e não vou desperdiçar. Não tem como dar errado, o amor dele por mim superou a dor da perda da esposa…

Dona Marta aceitou o pedido e Seu João ficou feliz. O casamento foi marcado para dali a alguns meses, tempo suficiente para ele vender a antiga casa e comprar uma nova na cidade para os dois. Ela não precisaria mais pagar aluguel e teria um homem de verdade ao seu lado.
Às vésperas do casamento, resolver entrar no assunto da esposa do viúvo. Nunca havia colocado a falecida como assunto principal da conversa, mas naquele momento sentiu que tinha liberdade para fazer perguntas mais pessoais, aproveitando a leveza trazida por alguns cálices de vinho tinto.

- João, você ficou muito triste quando sua mulher morreu?
- Por que falar disso agora?
- Porque você sempre evitou falar dela, e agora que vamos nos casar deve estar menos triste, pois um novo amor supera a dor.
- Não sei dizer… triste assim… - a lentidão do raciocínio denotava embriaguez, mas o homem se esforçava – Foi até rápido… ela tinha problema no coração… todo mundo sabia… tomava remédio… fazia tratamento… mas ninguém esperava…
- Ela não sofreu, então? Não mais do que você?
- Não muito… o efeito da bolinha foi… rápido.

Ao ouvir isso, Dona Marta arregalou os olhos e disse precisar ir ao banheiro. Antes, correu para a sala e tirou o telefone sem fio do gancho.
- Alô, Irene. Você não vai acreditar…
- Marta? É você? Tá falando com a voz baixa, o que aconteceu?
- O Seu João matou a mulher! Perdi minha fé nos viúvos também. – e esperou a polícia aparecer na porta de casa após Irene desesperar-se pela vida da amiga.