quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Catarina, a mulher

Catarina se vestiu de menino. Colou um bigodinho falso, emprestou a roupa, o sapato e o boné de um amigo, adotou uma postura encurvada e engrossou a voz. Julio e Dino olharam surpresos para ela: parecia realmente um moleque largado, mas era a mesma Catarina astuta de sempre.

A moça propôs uma aposta para ver quem chegaria primeiro ao outro lado da pequena ponte que passava sobre um córrego de águas calmas. Queria provar a superioridade feminina mesmo em vestes masculinas. Era uma feminista, dessas que evocam nomes feios em brigas pela igualdade (ou superioridade) da mulher e agem de forma inesperada e impulsiva. Os três amigos estavam preparados para a corrida, quando a moça furou a largada e saiu à frente, chegando primeiro ao outro lado. Os rapazes riram da trapaça e aceitaram a derrota. A amiga era a mais esperta do grupo, não havia o que discutir. E os dois estavam apaixonados por ela; só não brigavam porque a amizade era forte demais para uma disputa dessas torná-los inimigos. Catarina, perspicaz e interesseira, reconhecia a admiração mútua, e isso fazia com que sentisse ainda mais querida. Queria ser uma mulher livre, sem dono, rotina e responsabilidades. Seu destino era ser amada e conseguir tudo o que quisesse, sem ter de retribuir o sentimento ou dar aos outros aquilo que eles gostariam de receber.

Quando Julio finalmente tomou coragem para se declarar à amiga, diante da desistência de Dino, ela o aceitou imediatamente. Foi um impulso que acometeu suas idéias e a vontade de experimentar uma outra vida, sem que a quisesse para sempre. No entanto, sabia que não havia sido feita para amar. Seu orgulho era grandioso demais para que pudesse amar alguém, e seu egoísmo não permitia que pensasse nos outros antes de si própria. Seria vantajoso ter um marido, alguém que se preocupasse com seu bem-estar e suas vontades. Mas levantar cedo para cuidar da casa, dos filhos e do marido, e deixar os hobbies de lado para assumir afazeres domésticos, estava fora de cogitação. Queria a melhor empregada para cuidar de tudo. Nas noites em que Julio estivesse fora, sairia em busca de diversões sem culpa. Dessa maneira, construía seu futuro imaginativamente nas folhas de um caderno antigo, onde desenhava um vestido de noiva e um terno a rigor, colando a foto de Julio no corpo feminino e a sua nas vestes masculinas.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

These charming men

Eles não são particularmente bonitos, mas a meu ver possuem um charme muito mais expressivo do que a beleza de muito ator (imagens linkadas nos nomes).

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A propósito do deslumbramento

Como eram mais doces aquelas manhãs em que acordava ao seu lado, sorridente e serelepe. O mau hálito já não tinha tanta importância, nem as remelas nos olhos que acabavam de abrir. O estômago roncava de fome, mas a vontade de ficar ali só mais alguns minutos o prendiam à cama. O dia estava começando, ensolarado e fresco. O vento atravessava as frestas da janela do quarto e empurrava suavemente a cortina, que dançava melancolicamente em um ritmo quebrado.

Era tudo tão novo, tão gostoso, tão... deslumbrante. Ela só conseguia enxergar o que havia de bom naquilo tudo. Defeitos, manias e implicâncias eram jogados no canto e ficariam ali durante algum tempo, até serem remexidos e desmistificados.

Contentava-se com pouco. E havia poucos e poucas naquela convivência. Poucas discussões, poucos argumentos, poucos beijos, poucos passeios, poucas idéias e poucas confissões. Era tudo morno, mas proveitoso. Desde quando se tornaram mais íntimos, ela cravou uma fantasia na cabeça de que todas aquelas maravilhas eram obras dele: ele era muito bom, não podia negar.

Mas um dia, o deslumbramento revelou-se fajuto. Mirrado, azedo e irritante. Bobo, fantasioso e falso. Franzindo a testa, com os lábios imóveis e o maxilar tenso, mergulhou e revirou o espaço gelatinoso que separava o imaginário do real, esticando as mãos para alcançar rapidamente as imagens que buscava. Tocou-as com as pontas dos dedos e retrocedeu. Estava tudo ali, tão claro e recompensador que esboçou um sorriso malicioso. Ela era a dona daqueles momentos; ela os controlava e manipulava para serem como eram. Com um ímpeto feminista, desfrutou da solidão e caiu em um sono profundo logo em seguida.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

As aventuras de Dindim

(ou Como explicar didaticamente economia para crianças)

Todos os meses, Dindim se aventura pelo mundo da economia, dos sonhos, da necessidade, do consumismo e do pão-durismo. Dindim não anda sozinho e está sempre acompanhado do seu fiel companheiro, Tutu, além do Capitão Estoque.

Em uma de suas recentes aventuras, Dindim enfrentou a alta dos barris de ouro negro. Em um contexto aparentemente distante, esse acontecimento quase fez Dindim sumir, de tão inerente que está em sua vida. Sorte dele que o Professor Metanol estava por perto e pôde salvá-lo. No entanto, até o velho Professor passou por maus bocados por causa de outra crise, mas isso já é outra história.

Ultimamente, Dindim tem andado meio esquivo. O nervosismo e a incerteza da economia, as falências de empresas, a queda da Bolsa e outras inúmeras crises decorrentes da histeria do Mercado o obrigaram a pedir ajuda ao Capitão Estoque. Então, Dindim e Tutu mal colocam a cabeça para fora de casa, tamanho o medo de desaparecer com esse furacão econômico. Ele é um rapaz precavido – até demais.

Uma informação que alguns podem desconhecer: Dindim é repórter. Em meio a todas essas intrigas que ameaçam sua vida, ele precisa desvendar conspirações, corrupções e mistérios. Dinheiro público que se teletransporta, impostos que se multiplicam, inflação que se estica, salário que encolhe... logo ele precisará transcender seu mundo e pedir ajuda aos $-Men para evitar que essas ameaças mutantes se espalhem.

Este está sendo um ano conturbado para Dindim, apesar de ter conseguido muitos furos de reportagem. Mas ele sabe que essa crise não é a primeira e nem será a última. Logo depois dessa, outras aventuras virão, e Dindim pode até converter seus valores para sobreviver a momentos ainda piores.  

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Je suis une personne terrible

Chega de canções que falam de amor, paixões não correspondidas, síndrome de cachorro sem dono... Por que não algo mais sincero, que reflete quem realmente somos, mas queremos esconder? A banda californiana Rooney tem uma ótima resposta a esse apelo: I’m a terrible person até pode soar bonitinha, mas a letra é o oposto da melodia. É agressiva, ácida e canalha; é atual, sarcástica e vibrante.

I’m a terrible person (Rooney)

I'm a terrible person
I'm a terrible person
I'm a terrible person
Cause I've made up my mind
I'm a terrible person
Cause I've led her on
And I'm the only one who knows what I've done to her
I'm much smarter now
I won't tell her friends before her
It's gonna be a bad day come Sunday
It's gonna be a bad day come Sunday
I'm a terrible person
I read her diary
I'm not to be trusted
I told all of her secrets to all the guys in town
They all laugh and slap me five
Luckily she doesn't have dirt on me
Cause I'm the cleanest guy
I'm afraid
I don't think I'll ever be sorry
No I'm not sorry for a thing I've done
And I don't think I'll ever wake up lonely
Cause having her around wasn't all that special

Curiosidades: O Rooney é liderado pelo vocalista e guitarrista Robert Schwartzman, belo exemplar do gênero masculino que atuou no filme O Diário da Princesa, ao lado de Anne Hathaway. O rapaz é de uma família pouco conhecida que atende pelo sobrenome Coppola. Alguns membros de sua árvore genealógica:
- Jason Schwartzman, irmão. Ex-baterista do Phantom Planet e ator de Rushmore e Viagem a Darjeeling.
- Talia Shire, mãe. Interpretou a Connie Corleone em O Poderoso Chefão.
- Francis Ford Coppola, tio. Dispensa apresentações.
- Nicolas Cage, primo. Dispensa apresentações
- Sofia Coppola, prima. Ex-atriz e diretora/roteirista de produções pseudo-indies.
- Roman Coppola, primo. Diretor e produtor indie de verdade.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

“Musos” inspiradores – Parte II


Redescobri outro de meus musos inspiradores. É um sujeito baixinho (1,64 m), com uma mente criativa e fora do comum. Seus roteiros renderam filmes absurdamente brilhantes – sorte dele que diretores competentes fizeram jus ao seu trabalho – e atuações surpreendentes das medianas Cameron Diaz e Drew Barrymore. Meu muso é Charlie Kaufman.
Desconheço sua carreira no teatro e na TV (ele chegou a escrever, inclusive, para o programa do ex-Saturday Night Live Dana Carvey, comediante famoso pelo personagem Garth Algar, de Quanto mais idiota melhor), mas no cinema ele é o top de linha da atualidade. Duvida? Então veja quais roteiros ele já escreveu:

Quero ser John Malkovich (Being John Malkovich): Roteiro que marca a estréia de Kaufman no cinema. Spike Jonze, famoso por videoclipes como Sabotage (Beastie Boys) e Praise You (Fatboy Slim), dirigiu essa viagem à mente de John Malkovich. Com John Cusack, John Malkovich (óbvio), Cameron Diaz e Catherine Keener.

A natureza quase humana (Human Nature): O trabalho mais obscuro do roteirista e primeira colaboração com o cineasta francês Michel Gondry (outro clipeiro de primeira). A história é uma paródia de Tarzan com outros elementos bizarros, como uma mulher peluda, uma ninfomaníaca e um cientista nada convencional. Com Tim Robbins, Patricia Arquette, Rhys Ifans e Miranda Otto.

Adaptação (Adaptation): Melhor do que o trabalho anterior da dupla Kaufman-Jonze, essa comédia dramática é genial a ponto de fazer com que o espectador confunda ficção e realidade – afinal, o próprio roteirista virou protagonista e ganhou um irmão gêmeo. Com Nicolas Cage, Meryl Streep, Chris Cooper e Tilda Swinton.

Confissões de uma mente perigosa (Confessions of a dangerous mind): Em mais um estudo da psique humana, desta vez o roteiro penetra nas lembranças de um popular apresentador de TV e agente da CIA. Estréia primorosa de George Clooney na direção. Com Sam Rockwell, Drew Barrymore, George Clooney e Julia Roberts.

Brilho eterno de uma mente sem lembranças (Eternal sunshine of the spotless mind): Obra-prima do cinema contemporâneo. Um dos filmes mais tristes a que já assisti. Gondry mais uma vez comprova seu talento por trás das câmeras, enquanto Kaufman... sem comentários. Com Jim Carrey, Kate Winslet, Mark Ruffalo e Kirsten Dunst.

A próxima contribuição de Charlie Kaufman ao cinema será a comédia Synecdoche, New York, escrita, dirigida e produzida por ele. O elenco maravilhoso conta com nomes como Phillip Seymour Hoffman, Samantha Morton, Emily Watson e Jennifer Jason Leigh.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Saúde!

Estação de metrô da Sé, onde habitantes de todos os cantos da metrópole se esbarram, se empurram e se xingam. A escada rolante subia lentamente, na sua melancolia diária e interminável. O ruído remete a rotina: trabalho, escola, faculdade, viagem, compras. O vento paulistano percorre quilômetros e chega até mim trazendo consigo poeira, poluição, vírus. Um forte espirro, o rapaz ao lado olha para mim e pronuncia um atencioso “Saúde!”. Em resposta, um “Obrigada!” engatilhado na ponta da língua.

“Saúde!”. Essa simples palavra, que eu mesma não costumo utilizar em meu vocabulário de trocas cordiais de expressões cotidianas, pontuou a razão de existência daquela manhã. Todos envoltos em sua bolha invisível, preocupados com seus próprios compromissos e atrasos, em busca de um assento no banco do ônibus ou do metrô. Homens e mulheres sem rosto, como pinturas de Magritte, julgados por suas vestes, rumo ao ganha-pão de cada dia.

Passageiros anestesiando o tédio com seus iPods e tocadores de MP3. Alguns rompem o raro silêncio com conversas telefônicas, animadas ou emburradas, compartilhando, involuntariamente, segredos com os demais viajantes. Entre si, não trocam frases, gentilezas ou olhares.

Esteja o dia começando ou terminando, a pressa e o desprezo são os mesmos. Algumas particularidades durante essas viagens, curtas ou longas, quebram a rotina e marcam o dia, a semana, o mês... São atos simples que nos surpreendem e estampam um pequeno sorriso no canto dos lábios. “Saúde!”.

sábado, 20 de setembro de 2008

Da série...

...Se eu fosse Maria Raquete


Marat Safin

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Pequena caçadora

Ciça era uma criança diferente das outras - ainda que todas elas sejam, de fato, diferentes entre si, mas a garota se destacava. Pequena, bochechuda e com mãos gordinhas e hábeis, ela não ligava em brincar com as outras crianças. Gostava mesmo era de bichos: joaninhas, formigas, coelhos, cães... qualquer um que pudesse levar de um lugar a outro.
A personalidade forte lhe dava um ar de mandona. Cansada de obedecer aos pais, tios e avôs, encontrou nas pequenas formas da natureza um jeito de fazer com que agissem de acordo com sua própria vontade. As crianças, quando a viam, se escondiam, uma vez que não queriam fazer parte do pequeno circo de imposições de Ciça.
Em uma preguiçosa tarde de domingo, saiu pelo portão de madeira da casa do avô em busca de algo para se distrair. O vestido xadrez branco e vermelho era novo, mas as sapatilhas pretas eram velhas companheiras, com as solas desgastadas de tanto correr atrás de coelhos e gatos traumatizados. Com o rosto ainda lambuzado pela cobertura do bolo de chocolate, Ciça fixou o olhar em um cãozinho que espreguiçava sob a sombra de uma casa. Aproximou-se lentamente, segurando a respiração para não chamar a atenção do bicho. Subitamente, agachou e agarrou o cão macio, lambuzando ele também de chocolate. Em seguida, ouviu um latido bravo. Virou-se e era uma cadela grande, provavelmente reclamando o seqüestro do filhote. Assustada por ter encontrado finalmente um animal que a desafiasse, correu com o pequeno cão entre os braços. O instinto maternal da perseguidora ameaçava a menina, que chorava e lamentava o azar de escolher o cão mais gracioso da rua. Quando percebeu que a corrida se tornava inútil, parou e colocou o filhote no chão. A cadela lançou um olhar desconfiado e se aproximou do cãozinho, lambendo as pequenas manchas de chocolate em seu pêlo. Aproveitando a distração do animal, saiu dali. Voltou para a casa do avô, atônita pelo que havia acontecido. Sentou-se no chão da sala e foi brincar com suas bonecas.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Rosas vermelhas

Cheguei em casa com o estômago roncando de fome e cansada após passar o dia inteiro na faculdade. Ao me aproximar da porta do quarto, com a lâmpada ainda apagada, notei algo diferente em cima da escrivaninha, próximo ao computador. Pressionei o interruptor e pude ver o que era: um grande buquê de rosas vermelhas.

Meu coração imediatamente acelerou, a fome deu uma apaziguada e eu senti uma espécie de medo. Sabia quem as havia mandado, não foi nem preciso ler o cartão ou ouvir a revelação de algum membro da família. Aproximei-me do presente, imaginando como gostaria que fosse a demonstração de afeto da outra pessoa. Sabia que não era. Abri o cartão e me senti culpada. Sim, culpada, embora lisonjeada - afinal, foi a primeira (e uma das poucas) declarações sinceras que já recebi. Queria voltar no tempo e evitar aquele momento embaraçoso.

O que diria eu, na minha timidez irresoluta? Liguei e agradeci, sem muitas palavras, mas não conseguindo esconder a surpresa no tom da voz. Estava triste. Não poderia mentir, e a verdade seria dolorosa para o outro lado. Preferi dizer pessoalmente, ainda que o sofrimento dele me fizesse chorar também. Talvez um dia compreendesse - ou nossa amizade terminaria ali, naquele instante.

Não menti. Foi tudo rápido e dramático. Como era difícil me tornar adulta! É complexa a sensação de ser admirada por alguém a ponto de fazê-lo chorar. Eu sempre fui a iludida das histórias, aquela que se apaixona em silêncio, que esconde de si própria o que sente. Só que naquele momento, eu me tornei o objeto inalcançável para um colecionador. E tudo tomou um rumo inesperado sete meses depois.