sexta-feira, 26 de abril de 2013

Da série...

...Quero pegar no colo e não soltar mais


Aidan Turner

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Inesperado

Tudo o que queria era poder tirar-lhe a máscara, descobrir sua face do véu invisível que ocultava quem realmente era. E assim fez, por acaso, durante uma visita cordial. Na sala de jantar, o marido contava uma piada e arrancava gargalhadas dos convidados. Sem poder demonstrar o quanto patético considerava aquela piada racista, riu junto, abrindo um enorme sorriso. Como era bela quando sorria! Admirou-lhe discretamente, pois não queria que soubessem de sua paixão secreta pela mulher casada. 
Pensava que vivia feliz ao lado do jovem marido, mas no seu íntimo, sentia que ela sabia guardar segredos difíceis como a solidão e o desconforto. Quando ela se levantou, ainda rindo, e seguiu rumo a cozinha, com duas travessas nas mãos, ele a seguiu, segurando um pequeno frasco, para ajudá-la a desfazer a mesa. Sem perceber os olhos do admirador, parou de rir assim que adentrou a cozinha. Colocou as travesas em cima da pia e lançou um olhar cansado para o relógio na parede. Com receio de ser descoberto, escondeu-se atrás de um armário antigo e continuou a estudá-la silenciosamente. Ela se abaixou, abriu a porta do gabinete da pia e retirou uma garrafa sem rótulo com um líquido âmbar. Despejou a bebida friamente num copo e bebeu, como se fosse água. 
Enquanto os risos aumentavam na sala, seus olhos deixavam escapar lágrimas, que escorriam e desbotavam a maquiagem. Ao ver aquilo, ele não conseguiu se conter e aproximou-se retirando um lenço branco do bolso. Embora tivesse assustado com sua presença naquele momento, ela simplesmente sorriu. Deixou que lhe enxugasse a lágrima e sussurrou um pedido de desculpas pelas piadas de mal gosto do marido. Ele sorriu de volta e lhe deu um beijo, sentindo o gosto da bebida. Surpresa, tentou disfarçar como se nada tivesse acontecido e respondeu que já estava indo quando chamaram-lhe para ouvir a piada hilária que havia perdido. Após fitar o chão de maneira confusa, seguiu-a, para despedir-se de todos, agradecer pelo convite e pegar o paletó. Nunca mais voltaria a ver o casal de amigos, mas sentia-se satisfeito por vê-la como realmente era. E por beijá-la e ser correspondido.

domingo, 21 de abril de 2013

Desafio musical - parte 50

246) Uma música de um artista solo que saiu de uma banda que você gosta: Noel Gallagher, Everybody's on the run
Meio óbvio que seria o Noel Gallagher...

 


247) Uma música de um artista que não trabalha mais com música: REM, Man on the Moon
Bem, o baterista Bill Bery se aposentou da música. Os outros integrantes do REM, não sei o que fizeram depois da separação do grupo, vários anos depois.



248) Uma música de um artista que, na sua opinião, "fala demais" sobre o que não entende: Caetano Veloso, Você É linda
O culpa nem é toda dele, mas da mídia que vai procurá-lo para opinar sobre qualquer assunto - como se tudo o que ele dissesse fosse relevante.




249) Uma música de um artista que tenha exposto seu órgão sexual em algum momento: The Doors, Pepople Are Strange
Ouvi uma história de que o Jim Morrisson fez isso em show, mas não sei se é verdade - mesmo porque nem gosto o suficiente da banda para querer saber.




250) Um item que ainda não tenha aparecido no desafio: Uma música para cozinhar: Cole Porter, It's De-Lovely
Para animar o momento e a comida ficar especial.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

O último/ a última...

... filme (re)visto: Jane Eyre
... episódio de série visto: The Mindy Project – Mindy’s Brother (S01E10)
... música escutada: Tom Petty and The Heartbreakers, Don't Do Me Like That 
... álbum escutado: The Strokes, Room On Fire
... momento "groupie extasiada": show do Black Keys no Lollapalooza S2 
... mudança de casa: há exatamente uma semana
... ataque de gulodice: milkshake e veggie burger do Fifties
... ataque de pânico: ficar quase uma semana sem internet
... comprinha de mulher: saia e camisete
... itens para a lista de compras: bota, mochila e porta-chaves

domingo, 7 de abril de 2013

Depressão pós-show

O sorriso demorou a desaparecer do rosto. Mesmo deitada sobre o travesseiro, com os olhos fechados e quase pegando no sono, lá estava ele, de canto a canto. A canção ecoava na cabeça e alguns detalhes remanescentes cintilavam na lembrança. Aqueles pálidos olhos azuis perpassavam a todo momento na memória, assim como o gesto com o qual se expressava enquanto cantava. 
A todo momento, queria voltar a ouvir aquela voz. Encantadora e sensual, mexia com os sentidos e os sentimentos. Um tipo de excitação brotou e algumas fantasias tomaram forma no exato momento em que presenciou. E não conteve o berro espontâneo de "Dan, take me home", que permanecia como uma anedota divertida. 
Pequenas histórias que, coladas, formavam um mosaico do que aquele show representou. Mas, aos poucos, uma melancolia tomava forma e a abatia. Esperou tantos meses por aquilo e, finalmente, tinha acontecido. O que viria a seguir? O que esperar? Deu-se conta de que era uma pessoa adulta e que sua vida seguiria naquela mesma e velha rotina. Algo que, naquele instante, soou cruel e insuportável. Nada de Wendy na Terra do Nunca: havia crescido e envelhecido em poucos segundos. 
As dores do dia anterior, que em vão procurava ocultar, subiam das pontas dos pés ao topo da cabeça. Trêmulos, pernas e pescoço concentravam pontos latejantes, que vez ou outra pareciam torcer os músculos. Não se importaria em voltar no tempo e espaço, pulando enquanto os pés afundavam na lama e cantando com uma voz que jamais imaginou conseguir entoar. Era como se algo mágico saísse daqueles amplificadores e a transformasse.
Enquanto os delírios daquele passado próximo insistiam em elevar-se à décima potência, a realidade se aproximava lentamente, explodindo em câmera lenta na sua face. Nos dias que se seguiram, agiu de maneira apática. 
Ao mesmo tempo que queria falar sobre o que havia presenciado naquela noite de sábado, sabia que ninguém a compreenderia e nada do que dissesse traduziria o que viu, ouviu e sentiu. Não revelaria que naquela noite voltou a ter 17 anos, sendo a mesma sonhadora de outrora, que enxergava a beleza na simplicidade de uma canção. 
Embora obsessão e fanatismo fossem termos que pudessem ser usados para julgá-la, encantamento e melancolia seriam as palavras corretas para defini-la, enquanto lançava um olhar distante remetendo à pequena figura de pálidos olhos azuis contornados por olheiras, emoldurados pelos desgrenhados fios de cabelo ruivo e pela barba avermelhada. E a voz excitante conjugando tudo aquilo.

sábado, 6 de abril de 2013

Eu sei o quê

Não sabia o quê. Mas neste momento eu sei. Diferentes, mas iguais. Ou iguais, mas diferentes? Dói ao inspirar o ar, a cabeça lateja e a boca seca não cura nem com água. Os olhos caídos, o olhar distante e aquela lágrima que brota e demora a cair. Os pensamentos vazios se voltam a apenas uma coisa. As expectativas ocultas reagem para subir, e eu me esforço para mantê-las ali, debaixo da pele.
"Ella e nós" foi pensando em você. Sei que está longe de ser uma obra-prima, mas tenho orgulho. Uma história que nasceu na minha cabeça enquanto dançava solitariamente pela sala. Não admiti muitas coisas. Nunca falei sobre esse texto. Talvez fosse receio. Ou timidez. Ou os dois. 
Chegou a um ponto que você não esperava mais nada. E não esperar nada de alguém não impulsiona a seguir em frente, mas a parar, refletir e desistir. Diante de uma versão feminina de Mr. Darcy: indiferente e com um escudo costurado sobre a pele. O sentimento de importância, os pensamentos recorrentes... estavam todos ali, embora não parecesse. E quando finalmente se diz algo, é tarde demais. Não tem relevância, foi tudo jogado num canto.
Construí histórias na minha cabeça. Queria que fossem reais, que um dia se desdobrassem. Escondi o que sentia, puxei a corda com força quando algo estava prestes a se soltar. Não sabia o que você queria ao certo, e por isso não admiti o que eu desejava. E foi assim... ladeira abaixo para nunca mais subir de novo.
Mas, "nunca mais" é muito tempo. Bem sabemos que 2007 faz bastante tempo, mas não impediu que uma volta se esboçasse timidamente - para logo ser apagada em seguida. 
Não espero que esteja lendo nem que venha a ler. Se um dia vier parar aqui, compreenda que esta foi a melhor maneira que escolhi para me expressar - como sempre, guardada em algum lugar, para ser encontrada.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Eu queria ser Emma Woodhouse...

... Mas ainda quero? Um dos meus posts mais clássicos (datado de agosto de 2008) surgiu pouco tempo depois de uma pessoa que considerava muito dizer, na maior franqueza, "não gosto tanto de você quanto gosta de mim". Doeu. E ele nunca mais me procurou e deixou tudo como antes, como se nunca tivéssemos nos conhecido.
Na mesma época, lia Emma, de Jane Austen. Coincidentemente, Orgulho e Preconceito, da mesma autora, marcou outro momento de decepção amorosa em minha vida, e Elizabeth Bennet foi transformada em heroína.
Não sei exatamente qual momento atravesso. Só sei que fui repreendida com certa razão. Acomodei-me a agir de determinada maneira, seja com quem fosse. Mas eu não coloco um peso sobre minha cabeça de que sou a única culpada - tão pouco me faço de vítima.
De repente, sou a "Nova Baby" da música do Black Keys. "All this love of mine/ All my precious time/ You waste it 'cause you/ Don't know what you want". Cantei aos berros, quando me dei conta de que talvez fosse um pouco sobre mim - não sei o que quero.
Talvez idealize demais as situações e me esconda quando preciso tomar alguma atitude. Porque de tanto idealizar, chorei em meu travesseiro ao notar que a realidade é sempre mais aquém daquilo que construí mentalmente. 
Ou ainda, sou a "Romanticazinha", esperando que tudo siga um script determinado e tenha um final feliz. Mas esse script... eu sou a co-autora. Eu determino a minha parte, construo minha personagem, escrevo suas falas e determino suas atitudes. Só não controlo os outros, fazendo com que seja imprevisível e o final aproxime-se tanto de uma comédia quanto de um drama - só espero que suspense e terror passem longe.

Então, respondendo à pergunta: Ainda quero ser Emma Woodhouse? Penso que ela seja a personagem literária que mais se aproxime de quem sou. Não uma lady, mas alguém que com uma certa petulância quase incorrigível à espera de um Mr. Knightley que educadamente me faça enxergar que o mundo não gira apenas em torno de meus desejos escusos.  

domingo, 31 de março de 2013

Impressões pessoais sobre o Lollapalooza - 2º dia

Eu poderia escrever um post inteiro sobre o show do Black Keys no Lollapalooza Brasil, mas optei por um texto gigante abrangendo o que vi no segundo dia do festival - enfim, minhas costumeiras impressões pessoais. Dia 30 de março era a única data do ano que me fez olhar no calendário e fazer contagem regressiva. Afinal, já tinha comprado o ingresso assim que as vendas abriram e estava em êxtase para ver The Black Keys. Mas assim que a programação saiu, uma decepção: Franz Ferdinand e Alabama Shakes no mesmo horário. Com o tempo, fui montando minha grade para decidir o que assistir, mas eis que no próprio dia acabei remexendo tudo: ficaria apenas no palco Cidade Jardim, para ter uma visão melhor de todos os shows dali, principalmente do Black Keys.
Sem chuva, mas com lama. Sob o sol forte, logo fiquei perto da grade de segurança - a de trás, não do palco - para poder sentar e descansar nas pausas entre as apresentações. Minha pressão estava um pouco baixa, não podia dar uma de "super-mulher", com o risco de passar mal ali. Consegui ganhar alguns copos de água dos seguranças, o que compensou mais ainda.

Gary Clark Jr.: Perdi, mas ouvi
O início
Começou bem morno, com Toro y Moi, projeto do artista Chazwick Bundick. Musiquinha para ouvir sentado ou em um clube pequeno, calminha. Só para quem gosta mesmo.
Quando terminou, pude escutar Gary Clark Jr. do palco Alternativo. Bateu vontade de ir para lá, mas estava muito calor e eu só queria ficar sentada, já que assim conseguia uma sombrinha também. O show pareceu bom, mas depois li que problemas técnicos atrapalharam o guitarrista e vocalista norte-americano. Uma pena.

O baixista sensacional do TDCC
Hora de dançar
Two Door Cinema Club (TDCC) não é uma grande banda, mas faz bem aquilo com o qual se compromete: indie pop dançante. Músicas fofas, melodias para dançar, pular e sorrir e presença simpática no palco fizeram da apresentação dos irlandeses uma ótima maneira de se aquecer para o que viria a seguir. Os rapazes são uma graça, principalmente o baixista Kevin Baird, que estava sem óculos. Um fã mais brincalhão segurava um cartaz escrito "Ron, Harry e Neville", em referência à aparência física do trio principal.
Quando terminou, Alabama Shakes começou a tocar no palco alternativo e meu coração doeu: estava lindo ouvir dali. Como queria arriscar e ver a Brittany Howard cantar com sua banda! Mas fiquei ali, dei mais uma sentadinha, comi outra barra de cereal e batatinha e me preparei para o tumulto a seguir.


O gigante Josh Homme, do QOTSA
Banda de peso
Queens of the Stone Age (ou QOTSA) entraram no palco com pinta de banda principal da noite. E poderia ter sido. É inquestionável que o som pesado do grupo liderado por Josh Homme move massas e obriga a pular. Bem, se eu tivesse mais espaço para isso, teria feito. O problema (pequeno, diga-se) é que não sou familiarizada com a discografia deles E várias pessoas perto de mim, fãs, não pareciam estar empolgados o bastante. Assim, como se movimentar se estão todos lá parados, com o risco de acabar caindo em cima sem querer? Resumindo: foi um show foda, com presença e muita força. Mas, cumprindo aquilo que uma banda desse gênero promete. Ou seja, sem mais nem menos.

Dever cumprido
Após o final de QOTSA, muitas pessoas deixaram o palco Cidade Jardim. Talvez porque não quisessem ver The Black Keys ou preferissem aproveitar o tempo (1h45 para o início da apresentação seguinte) de outra forma. Mantive-me firme, embora o bocejo estivesse tomando conta de mim - e estava sentindo um pouco de cólica. Fui mais para frente, em busca de uma interação maior com o show. Ali estavam fãs fervorosos. O terceiro vocalista ruivo da noite (depois de TDCC e QOTSA), Dan Auerbach, surgiu com o olhar melancólico de sempre, acentuado talvez pelo recente divórcio com o qual está lidando. As olheiras eram as mesmas e a humildade no palco também. Ele e Patrick Carney estavam ali para tocar 20 músicas e fechar a noite de maneira satisfatória. Mas, ao meu ver, foi perfeita. Como já assisti a milhares de vídeos ao vivo, analisando sob a perspectiva imparcial, a apresentação foi objetiva e coube dentro do que o duo e a banda de apoio vêm fazendo.
Não é música pesada e ensurdecedora, é algo que às vezes beira o transcendental. Embora o som pudesse estar melhor, foi possível constatar porque Dan é um os melhores vocalistas do momento: é possível enxergar sua alma em canções como Little Black Submarines, Everlasting Light e Nova Baby. Quando fecha os olhos e se concentra, a voz flui; faz movimentos e gestos com as mãos, tendo autocontrole com o dom vocal. Afinal, não reproduz simplesmente aquilo que escutamos nos álbuns, mas se rende ao público


Pat e Dan em uma apresentação marcante
Patrick, que acaba funcionando também como uma espécie de relações públicas, dando entrevistas e muitas vezes falando pela dupla, tem aquele jeitão desajeitado, mas quando começa a tocar, suas batidas fortes ecoam. Começou de óculos, depois os tirou, colocou de volta, tirou de novo... imagino como também sofria com o calor. Dan, que entrou com a famosa jaqueta de couro preta, tirou-a logo no começo. Curioso também notar que o figurino costuma ser o mesmo - Dan, por exemplo, vestia a mesma camiseta de um dos shows do Coachella 2012.

Não foi uma apresentação de arena. Não foi porrada atrás da outra. Eu não sabia cantar todas as músicas, embora conhecesse e soubesse os nomes de todas. Mas vê-los ali, de perto, foi inesquecível. Dan abatido, surpreendendo-se com o público brasileiro, dando um sorriso aqui e outro ali. Foi melancólico, sob certo aspecto, mas belo e doce. São os mesmos caras das entrevistas que leio. Gente comum, colegas que formaram uma dupla e tocaram durante anos até dar certo. Li muitas críticas sobre o show, dizendo que foi apagado em comparação com QOTSA. Não cabe a uma fã como eu exacerbar revolta ou discordância, mas sob meu ponto de vista, foi algo lindo de ver, ouvir, acompanhar e sentir. Foram histórias pessoais intercaladas com músicas. Para mim, textos que contenham frases como "apenas banda do momento", "show apagado" e "não merecia ser headliner" são apenas pontos de vista de críticos especializados em música, que têm como trabalho analisar objetivamente, superficialmente e até friamente, tal qual aprenderam na faculdade. A diferença de um "show de verdade" com qualquer outro está no que ele significa para você. Neste caso, o maior valor do show foi ter sido emocionalmente envolvente.

Emoção à flor da pele com Little Black Submarines

domingo, 24 de março de 2013

Desconhecidos

Pagou a entrada e passou pela portinhola aberta por um segurança mal humorado. Era um lugar feio e sem cor, salpicado por pessoas reunidas em pequenos grupos e conversando de maneira pouco animada. Após comprar uma bebida, circulou e resolveu parar e encostar em uma parede bem iluminada. À sua frente, uma moça com olhar distante suspirava enquanto observava um grupo de amigos.

- Oi, você está sozinha por aqui?
Ao ouvir a pergunta, não conseguiu disfarçar o desânimo. "Tudo o que eu queria - uma pergunta clichê vinda de um cara qualquer", pensou.
- Não, não estou. Na verdade vim acompanhada de um grupo de colegas de trabalho - respondeu secamente, olhando para o relógio.
- Ah, é que estou sozinho. Você sabe como é complicado sair sozinho. Porque as pessoas dizem que se você não tem amigos e não conhece ninguém, precisa sair de casa para mudar a situação. Mas aqui estou... sozinho e mais solitário do que se estivesse no meu quarto, ainda que tenha esse monte de gente ao redor.
Instantaneamente, ela se interessou pela conversa. Voltou o rosto para ele e passou a repará-lo. Enquanto o synthpop tocava ao fundo, ele segurava um copo plástico e olhava para os lados de maneira desconfortável. Parecia gostar da música, mas não daquele ambiente acinzentado e sujo.
- Entendo o que está dizendo. Vim com pessoas com quem mal converso. Só estou aqui por boa vontade de me integrar ao grupo. Mas eles parecem ignorar minha presença. Você mesmo perguntou se eu estava sozinha - comentou, em tom de ironia.
- Então, tecnicamente, estamos ambos sozinhos. Numa noite de sexta-feira e num lugar com boa música, mas pouco amigável.
- Você é novo na cidade? - perguntou curiosa.
- Bem... não. Por que?
- Disse que não tem amigos e não conhece ninguém.
- "Ninguém" é modo de falar. Pessoas vêm e vão. Um dia você conhece alguém e conversa animadamente. Depois, chama essa pessoa para dar uma volta com você e escuta que "não anda tendo tempo ultimamente". Acostumei-me.
- E noutro dia, alguém te diz que precisa ser mais sociável no trabalho, daí você sai com as mesmas pessoas que vê o dia inteiro todos os dias e ninguém dá atenção para o que diz. Preferem falar mal das pessoas com quem convivem...

Ele a encarou de maneira terna, como se a compreendesse. Bebeu o último gole e jogou o copo no lixo. Fez alguns movimentos com as mãos, denotando nervosismo, e finalmente olhou nos olhos dela e perguntou:
- Qual o seu nome? 
- Ticiane.
- Bom, Ticiane, você quer dançar? 
- Dançar? Ninguém mais está dançando...
- O que temos a perder? Nada! E eles? Uma ótima música trocada por conversas agressivas.

Sorriu e pegou em sua mão. Dançaram juntos, de maneira atrapalhada, enquanto as pessoas ao redor lançavam olhares e risos debochados. Ela fechou os olhos e pensou que talvez aquela seria sua noite de sorte - mesmo se nunca mais visse aquele desconhecido que a tirou para dançar.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Outras notas cinematográficas

Bem-vindo ao jogo: Jogos de pôquer - e apostas - são o pano de fundo deste romance sobre um jogador compulsivo e talentoso (e bonito: é o Eric Bana) que acaba se apaixonando por uma moça "certinha" que desaprova seu modo de vida - bem, é sempre assim. Não traz nada muito novo, mas ao menos é empolgante.

Golpe de Mestre: Depois do excelente Butch Cassidy (1969), o diretor George Roy Hill se reuniu novamente com os astros Robert Redford e Paul Newman em um filme melhor ainda - Golpe de Mestre (1973). O roteiro é sensacional, conseguindo criar suspense e lançando mão do humor no momento certo. Sem contar o elenco e a direção impecável.

eXistenZ: Gosto muito do David Cronenberg, então certamente esperava mais desta ficção científica com um Jude Law supernovinho e uma Jennifer Jason Leigh linda e ótima como sempre. Pretensioso e com um final boboca que acaba anulando algumas das boas ideias da história.

A Época da Inocência: Martin Scorsese é um dos maiores diretores do cinema, mas este romance sempre esteve na prateleira dos "esquecidos" de muitos cinéfilos. Depois de finalmente assistir, entendo - chato, arrastado e desinteressante, sobressai-se pelo quesito técnico, especialmente direção de arte e figurino.

Deus da Carnificina: Ótimo filme de Roman Polanski (superior a O Escritor Fantasma) baseado em uma peça teatral com grandes atuações de cada membro do elenco: Jodie Foster, Kate Winslet, John C. Reilly e Christoph Waltz. O enredo equilibrado consegue balancear momentos dramáticos e cômicos, dando preferência ao último. 

Sem Segurança Nenhuma: Mistura de ficção científica com comédia romântica que busca abordar viagem no tempo de maneira diferente. É um filme eficiente que encontra bastante química na dupla de protagonistas Aubrey Plaza e Mark Duplass. Se focasse mais na trama central, poderia ser mais promissor.

Sete Psicopatas e um Shih Tzu: Sam Rockwell e Christopher Walken (e a pontinha de Michael Stuhlbarg) já valem uma conferida nesta comédia de humor negro do mesmo diretor de Na Mira do Chefe. Mas o excesso de reviravoltas acaba tirando um pouco a graça.

Brassed Off: Um dos filmes do começo de carreira de Ewan McGregor (pós-Trainspotting e Emma). Comédia dramática que, assim como Ou Tudo Ou Nada, apresenta uma leitura da era Thatcher e a crise no setor operário, no qual os personagens precisam encontrar outra forma de trabalho - neste caso, uma banda de fanfarra. 

Detona Ralph: Boa animação da Disney, que começa maravilhosamente bem até... aparecer uma personagenzinha irritante (Vanellope, dublada pela igualmente chata Sarah Silverman). Vale a pena conferir, mas da safra de indicados ao Oscar, prefiro ParaNorman.

Os Infratores: Depois dos imperdíveis A Proposta e A Estrada, o diretor australiano John Hillcoat recrutou Shia LaBeouf, Tom Hardy e Jessica Chastain neste drama violento que, no final, é inferior aos filmes citados. O roteiro de Nick Cave não chega a ser tão bom quanto o que escreveu para A Proposta, que era mais cru e menos sentimental.