quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A decepção não superada

Quase todo fim de relacionamento suscita aquela listagem de reclamações, ainda mais em tempos de Internet e redes sociais, que parecem dar mais liberdade para a pessoa expressar como está se sentindo e contar lembranças e defeitos do que passou. Alguns, irritados, ousam dizer "Ah, quando estavam juntos, era tudo bom. Por que agora vem esse poço de reclamações?". Porque, antes, tentamos encontrar motivos e forças para relevar alguns acontecimentos. Quando eles acabam, é como se a rede que segurasse isso tudo estourasse e os problemas vazassem. E, cá entre nós, alguns seres humanos têm a necessidade de desabafar - seja oralmente ou por escrito.
Eu voltei à psicóloga há cerca de um mês porque percebi que não estava bem e precisava de apoio profissional. O blog funciona, às vezes, como um meio de expressão simultânea - o que não dá para guardar ou esperar, preciso escrever. Lê quem quer.

O fato é que meu último relacionamento provocou sofrimento desde o início. Foram situações com as quais tanto eu quanto a outra pessoa não soubemos lidar. Aos poucos, foram feitos os reajustes. Mas isso não me privou da ansiedade, da depressão e do sofrimento. Tivemos os bons momentos e os ruins. As brigas com causa e as sem causa. A culpa de um e do outro.
Quando uma pessoa apresenta para você, logo de cara, nuances obscuras de sua personalidade, justificando que prefere ser sincera antes que descubra ao longo do tempo, é impactante. Eu não soube lidar muito bem com isso, era muita informação sendo despejada de uma vez, sendo que nem consenso havia de que um queria se envolver seriamente com o outro.
Em um momento de fragilidade, acreditei que daria certo dessa vez (a anterior havia sido há alguns anos, quando nos conhecemos e saímos poucas vezes). Mas foi muito difícil lidar com tudo, ainda mais que eu estava doente e nem sabia. Entre brigas, idas e recaídas, comprometemo-nos a levar a sério o que sentíamos um pelo outro. O apoio mútuo seria indispensável para levar aquilo adiante. 
Só que me desgastei. Passei por coisas complicadas que tentei esquecer, mas não consegui. Importei-me tanto em ver o outro lado, que esqueci do meu. Ou quando pensava em mim, acabava brigando. 

Não é um motivo que leva um relacionamento ao fim, mas vários que acabam acumulando. Da minha parte, o principal deles tem a ver com o assalto relatado aqui. Quando cheguei em casa, minha mãe me ajudou com o curativo dos machucados e liguei para a operadora de celular para cancelar a linha. Em seguida, tentei falar com ele. Quando me atendeu, contei o que havia acontecido, que estava muito nervosa e tinha me machucado. Ele se ofereceu para ir à minha casa, e eu disse que queria. Mas, ele sugeriu ir apenas no dia seguinte, uma segunda-feira. Eu falei que preferia que viesse no domingo mesmo. Era umas 17h30. Ele disse que iria, mas demoraria um pouco, pois estava na casa do amigo e precisaria tomar banho em casa e pegar o ônibus. Entendi perfeitamente e aguardei.
Mesmo não estando bem, preparei um jantar para a gente e, por volta das 21h, ele veio. Até aí, tudo bem. Só que, no dia seguinte, acabei descobrindo que quando liguei, ele estava jogando um jogo de tabuleiro que havia comprado naquele dia. E esperou terminar a partida para então vir me ver. Daí compreendi porque ele preferia vir depois, já que estava no meio de um "compromisso inadiável".
Tentei superar a decepção ao longo da semana, mas daí foi juntando com outros fatos e a mágoa ficou ainda maior. Por que eu não valho a pena a ponto de não parar um jogo para me ver e apoiar? Só eu tenho que estar à disposição para ajudar e se preocupar? Qual seria o futuro de algo assim?
O "gostar" não fez tanta diferença, pois meus sentimentos pareceram enfraquecer diante de todos os questionamentos que me rodeavam. Eu lidei com tantos acontecimentos mais difíceis, e tudo que precisava era de alguém que realmente demonstrasse preocupação pelo que estava passando. Quem já foi assaltado sabe como é difícil: vai além da perda material. Quando se é mulher e está sozinha no momento, sem ninguém para ajudar, acredito que seja pior, pois a impotência parece perseguir.
Por isso, a mágoa é por tudo: pelas constatações, pelo fim, por acontecimentos passados que insistem nas lembranças, pelas coisas que dissemos um ao outro. E só me resta desabafar e tentar superar como puder.

2 comentários:

Patty a.k.a. Delores Vickery disse...

Você é a amiga mais antiga que eu tenho. E eu tenho que te dizer, eu tive pouquíssimos episódios violentos (eu sendo a pessoa violenta) em minha vida, raríssimos. Mas eu sou daquelas pessoas que "veem vermelho" e tudo apaga. Quando eu li seu post no Facebook, eu devo ter mandado um "cara idiota" pro Rafael umas dez vezes. E eu queria te dizer "Lu, deixa eu bater nele?" não como uma expressão de suporte entre amigas. Mas é uma vontade real. Eu realmente acredito que eu teria um episódio de barraqueira e tentaria bater nele. Não, eu tenho absoluta certeza. Você veria um lado meu que pouquíssimas pessoas já viram. Eu estou tensa, eu estou nervosa, tremendo, com um zumbido no ouvido e sim, eu estou sendo um pouco egoísta e querendo descontar um pouco das frustrações que estou tendo esta semana nele. Em sua cara. Muito. Pra valer.

Como sua amiga, eu estou feliz por sua decisão. Eu estou feliz por você. Eu sei que dói, eu imagino que esteja com raiva, sofrendo, pensando em um milhão de coisas que passaram. E eu queria estar perto pra te abraçar. Eu sou péssima pra abraçar, ou dar conselhos. Mas eu queria estar fisicamente do seu lado. Eu queria que você visse em meus olhos que é verdade toda vez que eu digo "eu te entendo". E também, "que cara idiota".

E que eu SEI que você merece mais do que isso.

Garota no hall disse...

Patty, eu realmente tenho desabafado muito publicamente. Sabe como sou reservada e dou preferência ao blog, que pouca gente lê.
Estou trocando uns emails com ele no momento, colocando os pingos nos IS (ambos, aliás), e preciso revelar a defesa dele de que foram 15 min a mais de jogo depois que liguei. Ele demorou mais porque precisou arrumar umas coisas na casa dele.
Sem sarcasmo ou ironia, mas aplicando a ética jornalística de revelar os dois lados. Posso ter sido injusta ao dizer que ele demorou tanto tempo jogando, já que ele se defendeu disso e eu não tenho provas para dizer que ele mente.

No mais, como afirmei, não foi o único motivo para fim, mas o definitivo.

Um beijo, te adoro!